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“Mal sabia eu como minha vida na corrida mudaria.” Por Sérgio Garcia

“Estes caras acabaram de chegar de uma corrida de 90 kms na África do Sul…” Era a primeira vez que a Comrades se apresentava para mim.

Numa corridinha despretensiosa no Ibirapuera, Marcelo Nigro, amigo que me apresentou à corrida e me fez sentir a paixão através de suas histórias, agora me falava de algo sobrehumano.

“Como é possível isso?.. atravessar o continente.. 90 kms…”

A mente tentava entender tudo aquilo mas o corpo dizia, claramente: “Nós nunca faremos isso. Esquece!”

O tempo passou e, a cada corrida que fazia, eu pensava “esta distância vezes X é igual a uma Comrades…”

Abril de 2017, Maratona de Santiago.

Logo no início encontro um jovem com a alegria inconfundível de nossas terras. Após emparelhar com ele e me apresentar, perguntei: “Qual seu objetivo de tempo?” “3:20”, respondeu ele. “É a minha primeira maratona oficial e preciso deste tempo para me qualificar para Baia B da Comrades.”

Lá estava ela novamente e, pior, aquele jovem era mais maluco que eu…

Nem me alongarei sobre matérias de revistas que vinham parar em minhas mãos e as letras que saltavam das páginas, gritando: “Muito prazer, eu sou a Comrades; a Rainha das Ultras!”

“Vou para sub-três, quer me acompanhar?”

Isso lá é pergunta que se faça a quem tem um objetivo claro? Incrivelmente, no entanto, a resposta foi: “Sim; tô dentro!”

Lá fomos nós, ritmos compassados, tangentes perfeitas, hidratações ajustadas. Km 30 da Maratona e escuto ao meu lado: “Não vou conseguir, mas estou bem.”

Parti atrás do que estava buscando e disse rapidamente: “Te esperarei lá. Não demore amigo pois estou com muito frio e não sairei da linha de chegada.”

2:58. Eu batia meu objetivo.

Logo depois recebia a notícia de um Matieul eufórico. Ele havia conseguido (3:07)! Como é bom sonhar!

A “baia B” era dele. Ele estava qualificado para enfrentar o vale das mil montanhas.

Após retornar da prova ele não era a mesma pessoa. Falava radiante, havia ainda mais brilho nas palavras. Daquelas que contagiam e inflamam o coração. Contando dos detalhes da prova, ele me falava ao telefone: “Agora é sua vez. Posso te colocar no grupo?”

Mal sabia eu como minha vida na corrida mudaria.

Logo eu, tão solitário que era, me vi cercado de repente por titãs, monstros, homens e mulheres de feitos memoráveis. Homens com 250 Maratonas, mulheres que passavam dias seguidos correndo … Uma paixão que não imaginava existir pela corrida.

Começava a preparação para encarar este tão grande desafio. Eu já havia me rendido. Não havia mais volta.

Não quero adentrar no detalhe da prova em si. Ela é indescritível e nossas palavras são anêmicas para tentar reproduzir o que se vive alí. É como tentar explicar um cheiro ou um sabor; você tem de sentir.

Quero fechar aqui, ainda com o coração transbordando de tudo que vivi, com dois pontos:

1 – Mais importante que a corrida foi a jornada percorrida. Incrível como isso vai te transformando até o ponto de você chegar lá quase “sem casulo”, pronto para a metamorfose como pessoa.

2 – Aos menos habituados, são 6 São Silvestres, portanto: Muito prazer e me respeita: eu sou Comradeiro.

Enjoy the journey! Shosholoza!

Autor: Sérgio Garcia é empresário, ultramaratonista e atleta de trailrunning. Escreve para blogs e revistas, além de palestras motivacionais, falando de suas experiências vividas.

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