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“Dores no estômago e cólicas me fizeram lembrar que nem tudo são flores numa Ultramaratona” – Por Sérgio Garcia

Foto: Sérgio Garcia (IG - @garciasergiointegra)

Foram anos de sonhos e treinamento para ela. Cada prova, cada corridinha, despretensiosa ou não, o foco era ELA!

Lá estava, em solo Africano. O berço da humanidade. O lugar onde um dia disseram à David Livingstone que era impossível fazerem estradas.

Agora não somente existem, mas mais de 20 mil corredores passariam por elas, por quase 90 kilometros.

Começa todo o rito de largada: Hino da África, depois a famosa “Shosholoza”, música que os escravos cantavam em terras longínquas, sonhando com a liberdade e retorno para suas terras. Muitos morreram com esta esperança mas agora… pode cantar, Shosholoza. Cantem à plenos pulmões pois vocês são livres! O sangue dos seus ancestrais e muitas batalhas lhes deram este direito, que um dia alguém quis privar.

E eles sabem que são! Ahh, como sabem! E como cantam isto com a alma. Cantam ao ponto de nós, que não sofremos isto, sentirmos a dor, a empatia, a liberdade, e chorarmos juntos, antes da largada.

Mas… Estava no hora de enfrentar a “Rainha das Ultras”. A mais antiga e quase centenária Ultramaratona e maior em quantidade também, o que faz jus ao seu título.

O galo cantou. O tiro foi dado. 5:30. Começou!

Hora de tentar colocar em prática e viver tudo isto, pelo vale das mil montanhas. Emoção a flor da pele, pelas ruas de Durban, rumo a rodovia inicial. Nas ruas, em plena madrugada, milhares de pessoas aplaudiam e faziam isto com tanta intensidade, ao ponto de colocar mais “combustível” nas pernas. Impressionante!

Os primeiros kms foram tensos. Sem relógio, pois ele resolveu dar pau na semana da prova, o ritmo eram as batidas do coração, o compasso das passadas.

“Ritmo tranquilo, Sergio. Vamos lá, como nos primeiros dias de corrida”.
As placas de kms passando e aquela olhada rápida no celular para fazer um cálculo de como estava de velocidade e um registro das primeiras impressões por áudio.

Até aqui, perfeito!

Dia claro e a cidade já havia ficado para trás. Duas horas de prova e a multidão não se desvencilhou. Grupos de corredores, na mesma passada, se formavam por todos os cantos da estrada.

“Emocionante a corrida por aqui; lugar por onde passaram tantas lendas e de onde surgem tantos talentos.”

“Talvez em nosso meio esteja algum que já deteve o recorde mundial. Talvez outro que sonhou com ele, tinha capacidade mas algo deu errado.”

Sonhos realizados e sonhos frustrados. A vida é assim. “O que ela pede da gente é coragem”, dizia Guimarães Rosa, com propriedade.

Dores no estômago e cólicas me fizeram lembrar que nem tudo são flores numa Ultramaratona. Após os 45 kms de prova, já com quase 4 horas, veio a ânsia, e nada mais entrava no estômago.

Ah, as surpresas da África e as lições da corrida. Não à toa ela ostenta este título (Camaradas). Ela, em mais uma história, fazia jus ao seu nome e sua essência, e eu aprendia aquilo da maneira mais nobre que poderia se apresentar. O ânimo foi voltando. A mente estava forte mas o corpo não respondia.

Cinco horas de esforço físico e uma sem comer nada, acabaram com minha energia. Eu literalmente cambaleava pelas ruas, tentando manter os olhos abertos, quando chegou o Márcio Barbosa:
– Tudo bem, Sergio?
– Nada bem meu amigo. Não consigo comer nada, e o sonho da medalha de prata está escapando das minhas mãos.
– Vou contigo então.
– Negativo. Você vai atrás da sua.
– Sergio…. É “só” uma medalha. Meu amigo não está bem. Vou com você.

Consegui comer algo. Aos poucos fui retornando mas as pernas sentiam muito o esforço e falta de nutrientes para suprir isto.

O Márcio, com paciência, suportou meus quase 30 kms, intercalados entre caminhada e corrida.

É… Não era nesta estreia que a medalha de prata viria. Havia conquistado algo muito mais ímpar que isto. O grande valor de uma amizade. Amizade que se apresenta de forma mais intensa no momento de sofrimento, de frustração e não de alegrias, como é o rotineiro mas nem sempre o mais sincero.

Entrando no pórtico de chegada, uma bandeira verde e amarela “brota” de seu bolso. – Vamos Sergio, segura na outra ponta pois entraremos com ela esticada, à 4 mãos.

Comrades, sua linda, como não lhe amar. Mais de 8 horas das misturas dos mais incríveis sentimentos por suas colinas, do céu ao inferno, da dor à resiliência só me dá uma certeza:

Me espere em 2020!

Autor: Sérgio Garcia é empresário, ultramaratonista e atleta de trailrunning. Escreve para blogs e revistas, além de palestras motivacionais, falando de suas experiências vividas.

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